Partner im RedaktionsNetzwerk Deutschland
Höre {param} in der App.
Höre EM DIRECTO DA REDACÇÃO in der App.
(7.565)(6.472)
Sender speichern
Wecker
Sleeptimer
Sender speichern
Wecker
Sleeptimer
StartseitePodcastsMedien
EM DIRECTO DA REDACÇÃO

EM DIRECTO DA REDACÇÃO

Podcast EM DIRECTO DA REDACÇÃO
Podcast EM DIRECTO DA REDACÇÃO

EM DIRECTO DA REDACÇÃO

hinzufügen

Verfügbare Folgen

0 von 24
  • Relatório sobre vandalização de igreja de Gabú deve ser conhecido até segunda-feira
    O ministro guineense da administração territorial e poder local, Fernando Gomes, aguarda por um relatório que lhe deveria ser remetido até segunda-feira sobre o caso da vandalização de uma paróquia católica na semana passada em Gabú, leste do país. O governante deslocou-se no passado sábado ao local para se inteirar desta ocorrência inédita que deixara no ar a hipótese de se tratar de um acto de intolerância religiosa, numa zona predominantemente muçulmana.  No entanto os primeiros elementos apontariam para suspeitas envolvendo paroquianos de Igreja de Santa Isabel de Gabú, em torno de uma delegação seleccionada para as Jornadas mundiais da juventude, previstas para Portugal, em Agosto de 2023. O chefe de Estado, Umaro Sissoco Embaló, de confissão muçulmana, ao voltar ao país neste domingo à noite, desvalorizou o ocorrido fazendo um paralelismo com os supostos furtos registados em mesquitas. O caso tinha levantado, porém, muitas interrogações sobre o que realmente tinha ocorrido naquela paróquia de Gabú pelo que as conclusões deste relatório são aguardadas com expectativa.
    7/5/2022
    6:53
  • "Molière foi sempre um opositor”
    Que lições tirar de Molière 400 anos depois do seu nascimento? Fomos perguntar ao encenador português João Mota, um militante no teatro e na vida. O director artístico do Teatro da Comuna, uma companhia independente que cumpriu 50 anos, encenou peças de Molière, em tempos, e o que lhe interessa no dramaturgo francês é ele ter sido “sempre um opositor” e ter abraçado, nos textos, “a defesa dos mais pobres” e “o triunfo do povo”. João Mota recebe-nos em sua casa. De braços abertos e com uma genuína vontade de partilha. A conversa acontece em torno de Molière e de um necessário sobressalto de consciência através do teatro e dos temas que atravessaram 400 anos. Ontem e hoje, em cima e fora do palco, a luta pela liberdade e pela transparência continua. Quatrocentos anos depois do nascimento de Molière, que lições tirar do dramaturgo francês? A resposta de João Mota é imediata: “Quem triunfa é sempre o povo. Nas ‘Velhacarias de Scapin’ é a revolta dos criados contra os patrões (...) É o triunfo do povo, é o triunfo dos criados”. Além disso, é também a crítica “aos mercadores” e, com eles, à burguesia. João Mota levou a palco, em tempos, “Tartufo” e "As Velhacarias de Scapin”. O encenador e director artístico do Teatro da Comuna, em Lisboa, continua a ver em Molière temas transversais e intemporais e, sobretudo, a esperança de um sobressalto de consciência junto do público porque Molière “foi sempre um opositor como qualquer comediante, actor ou encenador”. Como ele próprio, João Mota. Esse sobressalto passa por “falar de amor e liberdade”, mas também resistência. “Foi sempre um opositor, no bom sentido da palavra, um indivíduo que quer a liberdade e quer igual para todos. Tartufo não é mais do que isso tudo: a mentira, a aldrabice, onde se mete a igreja, a caridade, toda a falsa caridade...É uma peça verdadeiramente espantosa onde chega a aldrabice. Ele denunciou sempre isso tudo até que, a dado momento, teve que fazer também umas coisas para divertir e acalmar os amigos da igreja e do rei”, descreve. Se Molière resiste até hoje “é porque exactamente é um opositor ao poder”, insiste João Mota. E também porque “a sociedade até hoje não conseguiu ultrapassar a barreira da falsidade, da mentira”.  Molière é, por isso, um autor eminentemente político. “Defende sempre o povo, por isso, é político, claro. Separa as classes e o inteligente é sempre o povo”, argumenta. Nas suas encenações dos textos do dramaturgo francês, João Mota excluiu, logo à partida, cenografias naturalistas ou “museológicas”, algo que aprendeu dos tempos em que trabalhou com o mestre britânico Peter Brook. “O actor é que tem de estar vazio, não é o espaço”, avisa. Ou seja, “o teatro não é um museu” porque é “uma arte viva com um grupo de comediantes e técnicos e um grupo de público”. “O texto é tão importante que só precisa de actores, como Molière fazia, tinha actores. Não havia projectores, não havia nada disso. Hoje, para fazer Shakespeare é preciso 500 projectores, para fazer Molière é preciso mais de 200 projectores. Porquê tanta coisa? Porquê? O teatro tem que voltar a ser o que era que é a linguagem pura, dos homens, a transparência de uns para os outros. Mais nada.” João Mota é, por isso, contra cenografias ditas de época ou museológicas. Até porque “o público renasce a ver Molière como se fosse uma crítica de hoje”, ou seja, são temas que atravessam o tempo e, por isso, não se devem datar com roupagens forçadas. “Basta um chão, uns móveis, um pormenor simbólico a lembrar coisas antigas, às vezes, porque o público não é burro, o público pensa. O público não é estúpido, cuidado. Há uma ideia de que o público é estúpido e então mostra-se tudo. É ridículo. É ridículo”, alerta o encenador. Quanto ao legado de Molière, hoje, João Mota resume: “A grande luta pela liberdade, a denúncia, a defesa daqueles que, em princípio, não têm defesa perante o poder, a inteligência que é a coisa mais importante porque ser rico ou ter poder não significa inteligência. O povo tem ‘la ruse’, tem uma coisa que é muito difícil ter: a inteligência e a esperteza (...). É esse lado que me interessa de Molière. É a luta que ele sempre travou contra o clero, contra aquela gente toda e foi sempre a defesa dos mais pobres, dos inteligentes.”
    6/30/2022
    13:10
  • Molière “nunca vai deixar de ser levado à cena”
    No âmbito dos 400 anos do nascimento de Molière, a RFI continua a mostrar as apropriações lusófonas das obras do dramaturgo francês. Em Almada, falámos com a actriz Teresa Gafeira que entrou nas peças “George Dandin” e “Don Juan”, encenadas por Joaquim Benite, em “Tartufo”, encenada por Rogério de Carvalho, e em “O Misantropo”, de Martin Crimp, encenada por Nuno Carinhas. A actriz garante que Molière “nunca vai deixar de ser levado à cena” porque um “grande clássico” nunca perde actualidade. É no Teatro Municipal Joaquim Benite, a sua segunda casa, que a actriz e encenadora portuguesa Teresa Gafeira nos recebe. Esta é também a casa da Companhia de Teatro de Almada, um “Teatro Azul” cujas fachadas se confundem com o azul do horizonte. É ainda uma casa de histórias, onde não faltam as histórias de Molière. Em 2006, o espectáculo de estreia do espaço foi “Don Juan”, encenado por Joaquim Benite, que 20 anos antes encenara “George Dandin” já para a Companhia de Teatro de Almada. Teresa Gafeira entrou em “George Dandin” e “Don Juan” de Joaquim Benite, mas também na peça “Tartufo” encenada por Rogério de Carvalho e “O Misantropo” de Martin Crimp encenada por Nuno Carinhas. Para a actriz, Molière “nunca vai deixar de ser levado à cena” porque um “grande clássico” nunca perde actualidade. Nem que já tenha 400 anos. “Eu quando penso em Molière, penso num grande clássico e um grande clássico é aquele que permite tudo, por isso é que é clássico, porque nunca perde as suas qualidades, nunca perde a sua actualidade. É possível sempre fazer leituras novas, é sempre possível ao longo dos séculos aproximar à realidade de cada momento e isso é que é um clássico. Não é uma coisa morta, é uma coisa que se mantém viva, apesar de ter séculos de existência. Quando penso em Molière é nisso que penso. Para mim Molière, juntamente com Shakespeare, são os dois grandes clássicos, são aqueles que se podem fazer sempre, que são sempre actuais e que há sempre coisas a aprender. São levados a palco porque como não perdem a actualidade, ou seja, a maneira como os temas são tratados, os temas que são tratados, a maneira como são tratados, a complexidade, as possíveis leituras a serem feitas são tantas que continuam sempre a ser feitos porque as pessoas sentem sempre que é um desafio”, descreve. Molière e Shakespeare são aqueles nomes que “atraem, mas, ao mesmo tempo, assustam um bocado”. Certo é que um cartaz com estes clássicos tem garantia de sala cheia. “O público, mesmo que não conheça as obras, se ouvir falar que é um Molière ou que é um Shakespeare, o público vai ao teatro. Vai.” Teresa Gafeira interpretou Dona Elvira na peça “Don Juan”, em 2006. Trata-se de “uma personagem muito complexa” porque “é seduzida” por Don Juan “e depois tenta salvá-lo”. “O Don Juan, ao mesmo tempo que procura o prazer, é como se procurasse a morte toda a vida. Aquela busca do prazer é, ao mesmo tempo, procurar a morte. É o problema da existência, o problema da morte. Na nossa encenação, era muito evidente esse lado do Don Juan”, recorda a actriz. A cenografia da peça “era uma coisa um pouco atemporal” e o guarda-roupa “não era propriamente de época, era uma mistura”. Quanto ao espaço cénico, da autoria de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, era algo “muito aberto e, ao mesmo tempo, muito opressivo”, “com uma mesa enorme, gigantesca, que era a mesa onde ele depois convidava o Convidado de Pedra para jantar e era uma mesa enorme, gigantesca, no palco, sem nada, uma mesa vermelha sem nada, só com duas cadeiras”. Na peça “George Dandin”, também encenada por Joaquim Benite, em 1986, Teresa Gafeira interpretou a senhora de Sotenville. “O George Dandin é uma delícia, é uma crítica à sociedade, às aparências, ao querer subir, ao querer ser mais do que se é e, por isso, ser-se explorado pelos que estão mais alto, ser-se feito em fanicos pelos que estão mais altos, pelos senhores de Sotenville. O George Dandin era muito divertido, era um espectáculo de pequeno formato até porque ainda não tínhamos este teatro”, lembra. A peça andou em digressão pelo país todo, “de norte a sul”, e chegou mesmo a ir a França, numa altura em que ainda não se legendavam espectáculos. “Não era difícil porque eles conhecem o texto, mesmo não percebendo patavina de português!”, conta, a sorrir. Em 2014, Teresa Gafeira interpreta a astuta empregada Dorina na peça “Tartufo”, encenada pelo luso-angolano Rogério de Carvalho. “Ela é a que mais critica, mas, no fundo, é a que vê tudo”, descreve, lembrando que a peça “tinha um cenário muito bonito”, de José Manuel Castanheira, que era como “uma rotunda toda ela cenografada como se fosse o interior de um palácio, cheio de portas e cadeiras e um chão central como se fosse um chão de mármore também pintado”. Este ano, a actriz entrou em “O Misantropo” de Martin Crimp, a partir de Molière, encenado por Nuno Carinhas, no qual interpretava a professora de teatro. A trama seguia praticamente a estrutura original, mas “era passado numa suíte de um hotel de luxo em Londres, a protagonista era uma vedeta de cinema internacional, o Alceste era um autor dramático e crítico de teatro”. “Segue [Molière] passo a passo, mas tudo passado para os dias de hoje”, explica. Teresa Gafeira sublinha não ter a menor dúvida que “há-de haver sempre alguém que sinta necessidade de montar Molière”: “Acho que Molière nunca vai deixar de ser levado à cena. Não há possibilidade (...) Eu acho que nunca vai deixar de ser feito. É como os clássicos gregos, nunca vão deixar de ser feitos. Nem Molière, nem os clássicos gregos, nem o Shakespeare.”
    6/28/2022
    19:08
  • “Molière sempre foi uma espécie de farol”
    Rogério de Carvalho encenou “O Avarento”, “O Doente Imaginário” e “Tartufo” de Molière. Para este mestre do teatro, de 85 anos, “Molière sempre foi uma espécie de farol”. Nos 400 anos do dramaturgo francês, fomos ao Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, falar com o encenador luso-angolano, um dos mestres do teatro português. É um homem-teatro a falar de outro homem-teatro. Um tem 85 anos, chama-se Rogério de Carvalho, é luso-angolano e continua a encenar; o outro tem 400 anos, chama-se Jean-Baptiste Poquelin, conhecido como Molière, é francês e a sua obra continua a ser encenada. Quatro séculos os separam, mas o tempo não conta em palco. Rogério de Carvalho já fez quase tudo, dos autores contemporâneos aos clássicos, há quem tenha escrito que ele vendeu a alma ao teatro e nesse pacto não faltam as homenagens a Molière. Fez “cinco vezes” Tartufo, encenou “O Avarento”, em 2009, numa adaptação que foi distinguida em 2010 com o Prémio do Público no Festival de Almada, e “O Doente Imaginário” em 2012. “Molière representa para mim o grande teatro. Uma espécie de máquina que mostra a pobreza e a humilhação do ser humano no seu processo de vida, de vida política, de controvérsia e de sensações. É um teatro altamente carnal onde as coisas são levadas às últimas consequências em termos de predestinação das virtudes e das desgraças do ser humano”, descreve Rogério de Carvalho, numa das salas do amplo Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.   O encenador recebe-nos neste teatro onde está a preparar “O Medo devora a alma”, de Rainer Werner Fassbinder, com a Companhia de Teatro de Almada, para subir a palco de 28 de Outubro a 27 de Novembro. E fala-nos de teatro, da vida, da arte, da palavra e do “edifício do texto”. O texto que é a base do seu trabalho e que é o monumento que atravessa séculos e mantém vivo e actual o teatro de Molière. É isso mesmo que explica: Molière resiste ainda hoje porque é o feito “dos grandes textos, das obras-primas”, como acontece com Shakespeare e com as obras gregas que ainda dizem “alguma coisa sobre a nossa visão do mundo”. Molière também resiste por causa das “personagens muito ricas do ponto de vista do carácter e que se projectam até agora”. Tem, ainda, a ver “com o seu estilo, leveza e virtuosidade”. “Os textos de Molière permitem uma grande inventividade, permitem um imaginário riquíssimo para o encenador e permitem também aquela satisfação que nós sentimos que estamos a trabalhar com coisas muito ricas, como se fossem pequenas jóias, pequenas pérolas encontradas no fundo para criarem objectos de joalharia muito ricos”, descreve, alertando que, como encenador, não ilustra tempos nem personagens. A dada altura, Rogério de Carvalho sentiu, simplesmente, “uma necessidade” de trabalhar Molière e encontrou um “teatro completamente profundo, aberto, iniciático e cheio de complexidades no que se refere à técnica do teatro”. “O espectáculo está lá, no próprio texto, mas, ao mesmo tempo, é preciso ter uma capacidade de reinvenção e de encontrar o lado fantasmagórico, o lado em que a encenação cobre o próprio mundo da vida, a crueldade da vida”, continua o encenador, rindo, de seguida, com a pergunta que se segue e com a finta que nos prega. À pergunta “Como é que se reinventa Molière sem perverter Molière?”, responde: “Sem perverter Molière? Molière é um bocado perverso. As coisas já estão lá. Nós quando caminhamos, caminhamos para um mundo desconhecido e depois esse mundo vai abrindo para a realidade da sociedade, para a realidade dos mecanismos da hipocrisia, etc, etc. O Molière é muito subtil porque detrás de Molière há sempre uma tragédia. Não posso dizer que seja trágico-cómico, mas, por exemplo, O Doente Imaginário é a última peça que ele escreveu e há um drama dele. Quando alguém está a pegar num texto daqueles sentimos logo esse lado da perversidade de o próprio autor morrer ao representar o seu texto.” Rogério de Carvalho é louvado pelo trabalho minucioso sobre a palavra e as suas sonoridades e é um arquitecto do “edifício do texto” que é sempre “a sustentação para tudo o que se produz nos processos de trabalho”. Molière “tem muita acção e essa acção é a acção do próprio discurso, da própria palavra”. “A palavra é uma realidade concreta em que a fisicalidade do que é dito é uma das coisas mais importantes e mais complexas que trabalhamos nos diálogos. A palavra tem que ter uma dimensão de criar, tal como acontece na ópera, uma certa musicalidade que atrai o público e o público é gratificado por isso. É um gozo dizer, falar. Fala-se hoje que já não se representa, incarna-se as personagens.” Pode ouvir a conversa neste programa.
    6/20/2022
    17:13
  • “Misantropo”: Um clássico de alma contemporânea
    Nos 400 anos do nascimento de Molière, quisemos perceber porque é que o dramaturgo francês continua a inspirar os criadores contemporâneos.  Fomos conversar com o encenador Nuno Carinhas que estreou, este ano, “O Misantropo” do contemporâneo Martin Crimp, inspirado no clássico de Molière. Nuno Carinhas preferiu a versão de Crimp e aí viu a “transposição para o nosso tempo” e a“dilaceração muito bem-disposta” no mundo das artes do espectáculo. Os 400 anos do nascimento de Molière continuam a levar-nos até às releituras em língua portuguesa do dramaturgo francês. Em Lisboa, fomos conversar com Nuno Carinhas, encenador, cenógrafo e figurinista, que foi também Director Artístico do Teatro Nacional São João entre 2009 e 2018. Este ano, Nuno Carinhas levou a palco “O Misantropo” de Martin Crimp, a partir de Molière, para a Companhia de Teatro de Almada. O espectáculo estreou no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, a 28 de Abril. “O Misantropo” é um dos textos mais duros de Molière. Apresentada em Junho de 1666, a peça é uma sátira de costumes à arrogância das classes dominantes do seu tempo, mas é também uma história de amor e de ciúme. Alceste odeia a humanidade e até defende a sua extinção, como única forma de acabar com a hipocrisia e o tráfico de influências. Porém, ele ama Celimene que orbita no centro dessa mesma sociedade que ele tanto abomina. Nuno Carinhas foi buscar a versão contemporânea de “O Misantropo” escrita pelo dramaturgo britânico Martin Crimp, em 1996, e que é uma réplica à sociedade de hoje, nomeadamente no mundo do espectáculo, marcada por uma generalizada decadência dos valores humanos e por um crescente individualismo. Anos depois de ter levado a palco “O Resto Já Devem Conhecer do Cinema”, o encenador português voltou ao universo das apropriações de Crimp porque quis continuar “a explorar esse lado reinterpretativo ou interpretativo-criativo do Martin Crimp”. “Eu aproximei-me de O Misantropo precisamente por ser o Martin Crimp. Eu nunca fiz Molière nem tinha pensado fazer, mas O Misantropo é, com o Dom João, provavelmente as peças que eu prefiro do Molière. Quando vi que existia este Misantropo - que já não é novo, já é dos anos 90 - decidi fazê-lo por ser uma transposição para o nosso tempo absolutamente extraordinária, uma dilaceração muito bem-disposta sobre a convivialidade das pessoas do espectáculo e das artes do espectáculo, do cinema, da comunicação social, à mistura com agentes profissionais, com professores de representação, etc. Havia ali toda uma escola do teatro na versão do Crimp que me interessava”, explica Nuno Carinhas. Muda-se o cenário e muda-se o tempo, “o tempo é hoje, o lugar Londres”. Muda-se também o nome das personagens, menos o de Alceste, mas a história continua a mostrar um homem que está mal com o mundo inteiro e ama uma mulher que adora ser adorada por esse mundo que ele detesta. “É simultaneamente uma crítica a esta micro-sociedade do espectáculo, mas é obviamente também uma maravilhosa história de amor que, como sempre, teria que acabar mal, sobretudo na versão de Martin Crimp porque ele para ser coerente não se poderia, de maneira nenhuma, aproximar de uma jovem que está no pico do seu sucesso juvenil, que tem 21 anos, é americana, está em Londres de passagem também pelo seu sucesso no cinema. Portanto, para ele se poder aproximar dessa jovem, tem que abrir mão da sua misantropia, tem que abrir portas à sociedade e isso ele não quer por coerência própria”, descreve o encenador. A crítica fundamental à sociedade é feita tanto por Alceste, o misantropo, quanto por Jennifer, a nova Celimene, que também reconhece a frivolidade geral da sociedade do espectáculo, mas usa-a de forma pragmática. “Alguém disse que o Martin Crimp tinha criado uma Alceste ao fazer a Jennifer. O misantropo tem razão quando diz que ambos são rápidos de espírito e têm uma visão crítica sobre os outros. Só que ela ainda não está farta, digamos assim, tão farta e tão batida na vida como o Alceste. Ela tem outros recursos para sobreviver e continuar a viver nessa relação hipócrita com os outros, mais ou menos festiva, sem grandes compromissos”, continua Nuno Carinhas. Alceste ainda tenta, em vão, convencer Jennifer a fugir desse mundo e a instalarem-se algures no campo. “Um dos grandes problemas dos profissionais do espectáculo quando são misantrópicos – e somos muitas vezes misantrópicos, estou a falar de mim e de todos em geral – há momentos em que o que as pessoas do cinema, do teatro e da televisão querem é estar sozinhas, isolarem-se, viverem fora dos estúdios, dos teatros e fora dos outros. Temos momentos de reclusão quase fisicamente impostos e isso nem sempre é possível”, acrescenta. O encenador também assinou a cenografia e os figurinos, com Ana Vaz. Para recriar a suite de um hotel de luxo, onde se aloja a diva em ascensão, ele fez “uma caixa preta, um lugar mais ou menos sinistro entre a caixa de bombons e um sarcófago chique”, com “uma grande parede ‘capitonée’ no fundo, o chão de carpélio preto” e “chaises longues de veludo preto”. No final, havia um “baile de máscaras” com “trajes do século XVIII” e um lustre a fechar a composição. Nuno Carinhas usou a tradução de Daniel Jonas, de 2021, do texto de 1996 de Martin Crimp, o qual trabalhou o texto de Molière de 1666. Para o encenador, “todos os textos que resistem ao tempo são intemporais” e apesar de se viver numa época que “faz uma espécie de terra de ninguém do que é a herança cultural”, ainda há peças que resistem e se o fazem “é porque há alguma coisa de absolutamente indispensável e universal”. A contracorrente da aparente marcha contemporânea em direcção a “um deserto linguístico”, surgem dramaturgos que traduzem versos antigos, como Daniel Jonas que “tem um arrojo e uma maneira de compor entre o arcaico e o quotidiano nosso, o contemporâneo, de uma forma muito expressiva e livre”. Quatro séculos depois, Molière continua a inspirar criadores. Para Nuno Carinhas, talvez seja porque “ele trata de uma forma risível os seus argumentos, mas toca em coisas que hoje em dia as pessoas continuam a assumir”. Além disso, “é um criador fascinante e fascinante sobretudo relacionando a sua obra com a época em que viveu”. “É muito interessante nós pensarmos também que a época que o criou e que o deixou fazer foi a mesma época que depois o criticou e que o censurou. Isso é muito interessante para nós percebermos a natureza da criatura. Ele não se deixou ficar por ser um simples mestre de cerimónias de Luís XIV, à beira da corte, a fazer pequenas comédias só por divertimento. Não. É óbvio que ele tirou partido dessas situações. Ele, enquanto pessoa, é um personagem trágico também por natureza e eu creio que ele acabou mesmo misantropicamente, mas é um período fascinante da história do teatro. Se falamos de Shakespeare, falamos de Molière. Se falamos de Molière, falamos de Gil Vicente… Enfim, em todos os países há épocas que proporcionam o aparecimento e a resolução de determinados génios da escrita e do teatro que aparecem alimentados também por essa sociedade e por essa maneira de viver”, conclui Nuno Carinhas. Para ouvir a conversa integral com o encenador Nuno Carinhas no podcast desta emissão.
    6/20/2022
    17:02

Über EM DIRECTO DA REDACÇÃO

Sender-Website

Hören Sie EM DIRECTO DA REDACÇÃO, Hitradio Ö3 und viele andere Radiosender aus aller Welt mit der radio.at-App

EM DIRECTO DA REDACÇÃO

EM DIRECTO DA REDACÇÃO

Jetzt kostenlos herunterladen und einfach Radio & Podcasts hören.

Google Play StoreApp Store

EM DIRECTO DA REDACÇÃO: Zugehörige Sender