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  • Jean-Louis Trintignant, a brilhante e discreta voz do cinema francês
    No final da semana passada, faleceu aos 91 anos de idade um dos monstros sagrados do cinema francês, Jean-Louis Trintignant. Revelado em 1956 no filme «Et Dieu… créa la femme», uma fita em que contracenava com a estrela Brigitte Bardot, Trintignant ficou igualmente conhecido pelo seu papel no filme «Um homem e uma mulher» de Claude Lelouch em 1966 ou ainda «O amor» de Michael Haneke em 2012, um dos filmes pelos quais recebeu um dos seus inúmeros prémios de interpretação. Voz inconfundível, presença discreta, aveludada e por vezes inquietante, ele desdobrou um leque alargado de personagens ao longo de mais de 60 anos de carreira em França e também na Itália logo a partir dos anos 60. Nascido no dia 11 de Dezembro de 1930 em Piolenc, no sul de França, no seio de uma família de industriais, Trintignant enveredou muito novo pela arte e subiu ao palco em 1951. Será contudo no cinema que vai encontrar o destino. Ao recordar que «uma parte importante da carreira de Jean-Louis Trintignant foi feita no cinema italiano», Jorge Leitão Ramos, crítico de cinema ligado ao semanário português «Expresso» nota nomeadamente que Trintignant foi «um dos raríssimos actores franceses que quase não teve contacto com o cinema da ‘Nouvelle Vague’ (movimento lançado por um conjunto de realizadores em França nos anos 60)». Referindo-se ao filme que lançou a carreira cinematográfica de Trintignant, «Et Dieu… créa la femme », uma fita de 1956 em que Trintignant contracenava com a então nova estrela do cinema francês, Brigitte Bardot, o crítico português recorda o choque provocado pela fita. «O escândalo do filme é sobretudo devido às cenas em que Brigitte Bardot se despe. Na vida privada, o grande escândalo foi o Jean-Louis Trintignant ter ‘fugido’ com a vedeta e ‘roubado’ a vedeta» ao realizador Roger Vadim que era na época o companheiro de Brigitte Bardot. Depois de «Et Dieu… créa la femme», destaca-se também «Un homme et une femme», uma história de amor recompensada em 1966 com a Palma de ouro do festival de Cannes e cujo realizador Claude Lelouch foi dos cineastas com quem mais trabalhou. Durante esse período de dez anos, Jorge Leitão Ramos refere que Trintignant esteve longe de estar de braços cruzados. Antes de «Un homme et une femme», ele «faz outros filmes. Ele entra até num filme mítico que nunca chegou a ser acabado que é «O Inferno» de Henri George Clouzot que teve um problema de saúde grave no meio da rodagem». O crítico de cinema menciona também outro ponto marcante da filmografia de Trintignant que foi o «Z» , filme de 1969 do realizador de origem grega Costa-Gavras. A sua interpretação minimalista de um juiz de instrução durante a ditadura militar da Grécia merece um prémio no festival de Cannes naquele mesmo ano. «Jean-Louis Trintignant tinha aquele lado de bom rapaz, tinha aquela cara simpática, mas havia qualquer coisa de misterioso nos papéis que ele continuamente desempenhava e é uma das características centrais de Trintignant nos filmes mais importantes que ele fez», sublinha Jorge Leitão Ramos. Bem mais tarde no seu percurso, Trintignant foi igualmente recompensado em 2012 pela sua prestação no filme «O amor» do austríaco Michael Haneke, uma dolorosa fita sobre o fim de vida. «Ele faz (esse filme) com mais de 80 anos (…) e é um papel terrível porque é uma história com duas pessoas, octogenárias, que estão a morrer e o Trintignant fazia aquilo extraordinariamente». Desempenhando frequentemente no ecrã personagens atormentadas, a sua vida também foi marcada por dramas, nomeadamente a morte violenta da sua filha, Marie Trintignant, também actriz, assassinada pelo companheiro em 2003. Este episódio trágico que refere nunca ter conseguido ultrapassar acabou por transparecer também na sua forma de transmitir as emoções nos filmes. «Todos os grandes actores põem a sua vida no cinema», conclui o crítico Jorge Leitão Ramos sobre este artista cuja última aparição cinematográfica foi em 2019, ou seja apenas 3 anos antes de falecer.
    6/22/2022
    13:49
  • Os "restos e as sombras" de Pedro Costa em exposição em Paris
    O realizador português Pedro Costa tem neste momento, em Paris, uma exposição, uma retrospectiva, a estreia de um filme e dois livros acabados de ser publicados. É o “momento Pedro Costa” que por estes dias se vive na capital francesa. Acabam de ser publicados os livros Pedro Costa, Les Chambre du cinéaste com cinco textos do filósofo frances Jacques Rancière e Pedro Costa, Cinéaste de la lisière do investigador Antony Fiant. Até dia 26 de Junho está patente nos Jeu de Paume, nos Jardins das Tulherias, uma retrospectiva do realizador que vai desde a sua primeira longa-metragem O Sangue, de 1989, até ao filme Vitalina Varela premiado com o Leopardo de Ouro e prémio de melhor actriz no Festival de Locarno em 2019. Estreou, igualmente, esta quarta-feira em França o filme Cavalo Dinheiro, Ventura na versão francesa. Filme premiado em 2014 em Locardo (melhor realizador), mas inédito até agora nos écrans franceses e que pode ser visto em pleno Quartier Latin, no cinema Mèdicis. Também decorre até dia 22 de Agosto a exposição “O Resto é sombra” de Pedro Costa, Rui Chafes e Paulo Nozolino no Centro Georges Pompidou. Com a curadoria de Philippe-Alain Michaud e Jonathan Puthier, esta “apresentação imersiva”, como é descrita pelo Pompidou, tem uma cenografia labiríntica, com pouca luz, onde o visitante escolhe a geometria do seu percurso. Se a sombra é transversal ao trabalho destes três artistas, o resto também. O resto da luz, o resto das cidades, o resto de casas, de coisas, aquilo que resta da vida das pessoas. A adensar a intensidade da exposição está o barulho constante das demolições filmadas por Pedro Costa nos subúrbios de Lisboa. Foi, precisamente, numa das salas do Centro Pompidou onde decorreu esta conversa como realizador português  Pedro Costa. O resto é sombra. Porquê este título? “Nós, os três, durante muito tempo no trabalho de preparação, preferíamos ter os nossos três nomes como título da exposição. A certa altura o Philippe-Alain [Michaud] e o Jonathan [Puthier] pediram-nos um título para reforçar, para identificar melhor as coisas. É normal haver um título de uma exposição, caso uma coisa de catálogo. E nós pensámos, tínhamos várias ideias, cada um de nós e, a certa altura, reunimos e chegámos a esta citação do Fernando Pessoa, um poema do Pessoa apenas porque contém a palavra “sombra” que é muito comum em nós os três. Nos meus filmes, nas fotografias do Paulo [Nozolino] e mesmo nas esculturas do Rui [Chafes] que são todas em ferro negro. Portanto era uma palavra que se adequava bem. Todos gostávamos, todos aprovámos e passámos ao Philippe-Alain e ao Jonathan, que gostaram bastante. Acontece que é do Pessoa, que é o nosso poeta mais conhecido. Passou do título para os textos e, portanto, agora sabe-se que é uma citação do Pessoa. No meu caso, a palavra “resto” também é importante”.  O que nós vemos nesta exposição é muito o resto da sombra. Aquilo que saí do negro. A exposição é no escuro e o que sobressai são os restos. No seu caso, também mostra muito os restos da vida, os restos da demolição. “Exactamente, é isso mesmo. Tenho a sensação e tenho dito muitas vezes que estou, até pelo lado da produção, pelo lado do cinema, da maneira como se produz um filme, eu trabalho com restos, resto de coisas e restes de pessoas. As pessoas estão a tentar completar-se, estão quebradas, estão partidas. Pelo menos nestes sítios onde eu tenho trabalho há vinte anos e nos filmes tudo são restos, como disse, de casas, de cidades, de comunidades, etc. Enfim, são o que pode ser. Eu filmo com o que se pode apanhar”. De todo o trabalho que têm, e têm imenso, como é que chegaram a esta composição? “Isso foi um trabalho de grupo também com os curadores. A minha ideia, o convite começou por ser feito a mim em 2019, [acabou por ser adiado devido à pandemia], e eu trouxe o Rui [Chafes] e o Paulo [Nozolino] para o projecto. A partir daí começámos a pensar que peças, como compor as salas. Eu tinha feito uma exposição no Porto, no Museu de Serralves, onde duas das peças que estão cá também estavam lá, mas de uma maneira um bocadinho diferente por causa do espaço. O espaço em Serralves é muito diferente daqui, mas uma peça em colaboração com o Rui Chaves e outra com o Paulo Nozolino vieram. Depois tratava-se de compor, alongar com outras peças, com outras fotografias, com outras esculturas e talvez outros filmes. Isso foi uma discussão longa, desde 2019 até quase três meses antes da exposição. Quais as peças, quais as fotografias, como são as salas, a arquitectura, etc. Isso foi discutido em conjunto e chegámos a este resultado um bocadinho em colectivo”.  Esta escuridão também foi decidida por vocês?  “Sim. É uma arquitectura. Mais do que um trabalho de luz, é uma arquitectura da arquitecta que trabalha cá”.  Porque há a escuridão e também há todo o trajecto que é meio labiríntico.  “Sim, sendo das paredes escuras e digamos que relativamente apertadas, é um percurso sinuoso, labiríntico, onde as pessoas se podem perder. Perder no bom sentido e encontrar as peças de outra maneira, muitos pontos de vista. Há esquinas como nas ruas, é uma ideia pequeno bairro, pequeno ‘casbah’, pequena medina onde há muitas vozes, muitas cores, muitos sopros, murmúrios e gritos, e as coisas passam de umas para as outras com uma circulação interessante, eu acho". A abrir a exposição está o Ventura, com os braços cruzados e as mãos viradas para fora. Numa outra sala, encontramos rostos de mulheres, dos seus filmes, e as mãos de Rui Chaves. Não pode dar aqui a sensação de que elas de alguma forma estavam algemadas? "Nenhum de nós trabalha muito com intenções, de querer fazer uma coisa que diga aquilo ou outro ou exprima isto ou outra coisa. Por mim falo, os meus filmes são aquilo que está ali, são aquela realidade, são pessoas que filmo no trabalho, em repouso, com problemas, que discutem, que monologam… De facto, é uma realidade do nosso país. É uma realidade relativamente esquecida, mas absolutamente maioritária. Eu até diria que o que se vê nesta exposição, por mim, pelos meus filmes, talvez seja 80% da humanidade, para não exagerar. Salvam-se uns resquícios em Saint Tropez e Los Angeles e o resto é aquilo, é isto, é uma grande miséria. Às vezes é muito visível, exterior, outras vezes é interior. Nós, os três, se reflectimos isso e as nossas obras reflectem isso é porque vivemos na realidade e temos alguma consciência dela. Mas não há uma intenção de provocação ou desencadear esses sentimentos. Estamos numa história, estamos no mundo e nesta realidade. Isso vê-se muito nas fotografias do Paulo [Nozolino]. O Paulo atravessou muito a história com a fotografia desde a última guerra, pelo menos, até às guerras mais recentes, até aos efeitos dessas devastações, até esta que se passa agora”.  Isto é uma exposição colectiva ou uma exposição individual onde cada um de vocês se vai cruzando com o outro? "É as duas coisas. Nós não trabalhamos em conjunto, aproximamos coisas. Ou seja, falou da primeira sala, o Rui e o Paulo trabalharam um bocadinho solitariamente e de repente acharam que Paulo tinha aquilo e o Rui tinha aqueloutro e juntos acharam bem. Eu, com o Rui, foi a mesma coisa. Trabalhamos por aproximações.  É um bocadinho como no cinema, colar duas imagens provoca uma terceira, que de facto não existe, é formada pelo espectador, é uma coisa que o visitante imagina ou consegue produzir de juntar aqueles rostos daquelas mulheres por exemplo como a fotografia do Paulo, ou com a escultura do Rui, etc". Neste momento decorrem várias iniciativas artísticas sobre si em Paris: esta exposição aqui no Centro Pompidou, o filme Ventura que acaba de estrear, uma retrospectiva no Jeu de Paume e há ainda dois livros publicados sobre si, aqui, este ano. É a sua consagração? Como é que olha para isto tudo?  "Não dessa maneira. Esta exposição já tem um passado. Devia ter acontecido há uns tempos e, se calhar, não tinha tanta confluência com outras coisas. O filme estava para sair, estava para estrear e o distribuidor calculou que fosse, talvez, uma altura melhor para o estrear visto haver dois acontecimentos simultâneos. Os livros são, não digo uma coincidência, mas não foram programados. Um foi apressado para sair, de facto, ao mesmo tempo, mas apenas pela circunstância de eu estar aqui durante algum tempo e poder fazer as chamadas apresentações, assinaturas. A pandemia mudou e atrasou isto tudo e fez esta espécie de concordância das coisas todas. É muito bom, claro, para mim".  O filme o Ventura acaba de estrear em França, depois de ter estreado anteriormente (há menos de seis meses) a Vitalina Varela, que é um filme posterior. De alguma forma não o defrauda, digamos assim, que os filmes tenham sido cronologicamente alterados? “Não são filmes da chamada actualidade. A circunstância de estarem trocados, ou seja, deste ser mais antigo e sair agora é simplesmente porque não houve, na altura, 2015, distribuidores interessados ou capazes de estrear o filme.  Só depois do Ventura ser distribuído por uma distribuidora francesa, é que propus esta saída desse filme que estava inédito e eles aceitaram. Está cumprido!” Mas acaba por ser fantástico um filme que fez há algum tempo, estrear agora em França e ter esta repercussão toda?  "Sim, é também porque os filmes que eu faço têm muitas ligações entre eles. A Vitalina, que está neste, já estava na própria Vitalina. O Ventura passa por imensos. As pessoas já conhecem um pouco do trabalho que eu faço, que para o bem é um trabalho que, eu acho que as pessoas acham interessante, sério e importante, espero e para o mal acham que é sempre a mesma coisa: os pobres dos bairros pobres de Lisboa".  Qual é o tempo desta história? Presente? Passado? Aquilo que se vê são os corredores da cabeça do Ventura? "É isso, é isso que disse. Não é mau isso dos corredores, já que há corredores cá em cima, escuros e que levam a diferentes realidades. No Ventura também há fantasmas, pesadelos e não diria traumas mas alguns esquecimentos que lhe aconteceram por volta da data simbólica 25 de Abril. O que se passa no filme é a história desta quebra, queda do Ventura, que é um operário da construção civil que, nesse ano de 1974, começou a perder-se pelas ruas de Lisboa e a perder-se no seu tormento. É uma história pouco contada, mas os emigrantes africanos nessa altura apanharam um grande susto. Tinham vindo para Portugal, vêm para Portugal, à procura de uma vida melhor e, de repente, deparam-se com greves, paragem do trabalho, patrões a fugirem para o Brasil e com soldados na rua. Com soldados contentes e alegres, mas muito ameaçadores para eles, para eles emigrantes que viviam já numa espécie de guetos, de prisões nos arredores e ainda hoje vivem". Essa realidade acaba por ser actual, muito actual ainda. "Eu digo sempre que se o 25 de Abril tivesse sido cumprido, eu não tinha feito estes filmes. Não eram necessários. Portanto se os filmes foram feitos, se este lamento soa verdadeiro é porque alguma coisa ficou por cumprir de um sonho que eu tive, que tiveram todos que eu acho que ainda há muitas pessoas que têm, que alimentam que é o sonho de uma uma espécie de justiça banal entre todos, não digo democracia, mas justiça".
    6/16/2022
    17:11
  • Peças da colecção pessoal de Gulbenkian regressam a Paris em exposição no Hotel de la Marine
    O Hotel de la Marine, o mais recente museu a abrir em Paris, acolhe a exposição  "Gulbenkian por ele próprio, na intimidade de um coleccionador" que traz de volta a Paris muitas peças únicas de Calouste Gulbenkian, armador arménio que viveu em Paris e acabou por se instalar em Lisboa onde depois foi criada a Fundação Calouste Gulbenkian. O Hotel de la Marine é o novo ex-líbris dos museus a visitar em Paris. Inaugurado há um ano pelo Presidente Emmanuel Macron, este edifício na Place Concorde que serviu de depósito real de móveis, peças de arte e texteis a Luís XV e Luís XVI e que após a revolução francesa acolheu a Marinha, voltou ao seu esplendor. Após obras que se elevaram a 130 milhões de euros, podemos hoje percorrer os partamentos privados dos gestores dos bens dos reis franceses, que datam do século XVIII, assim como os salões de festas do século XIX, mas também um coleção de arte inesperada, a coleção do princípe do Qatar, Hamad bin Abdullah Al Thani, que durante 20 anos vai utilizar uma parte do Hotel de la Marine para expor a sua vasta coleção. Um coleccionador atual, Tamim bin Hamad Al Thani, decidiu convidar assim uma coleção história, a coleção de Calouste Gulbenkian, armador Arménio que viveu em Paris e acabou por se instalar em Lisboa, para mostrar até outubro a intimidade deste grande coleccionador do século XX. "Esta exposição tem um carácter íntimo, não tem grandes objectos como móveis, excepto a extraordinária pintura do grão-duque Richelieu, que está ligada à própria história deste edifício. Mesmo ao lado desta exposição, Calouste Gulbenkian teve um escritório, aqui no início da Rue Royale e na Praça da Concórdia, do outro lado, foi o primeiro apartamento no Quai Anatole France, onde tinha um apartamento de dois andares, onde ele via o Hotel de la Marine", disse Nuno Vassallo e Silva, director da Delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e comissário desta exposição. Em entrevista à RFI, o comissáro explicou como foram escolhidas as peças que viajaram de Lisboa até Paris, muitas delas num regresso ao local onde foram adquiradas. Esta exposição decorre no quadro da Temporada Portugal-França, uma iniciativa de diplomacia bilateral entre Portugal e França que visa aprofundar o relacionamento cultural entre os dois países e pode ser vista até dia 02 de outubro no Hotel de la Marine, em Paris.
    6/9/2022
    9:46
  • “La Domestication'', Francine e os seus dois maridos domesticados
    Acaba de ser publicado em França, o livro “La Domestication'', a tradução francesa de “O Homem Domesticado” de Nuno Gomes Garcia. A história de uma sociedade de absoluta submissão do homem à mulher, aqui retratados pela vida de Francine e os seus dois maridos domesticados.  A tradução francesa da obra acaba por ser mais ousada que a original. Na versão francesa a linguagem foi ‘feminizada’.  Neste magazine “Vida em França” viajamos até à cidade francesa de Andrésy, e na companhia do autor de “La Domestication'', Nuno Gomes Garcia, mergulhamos neste mundo distópico de Francine, Pierre e Jean. “O homem domesticado é uma distopia que se passa numa França, que o leitor pode escolher ou do passado ou do presente ou de uma realidade alternativa, que representa o mundo pós-pandémico, de uma pandemia que matou metade da humanidade sendo que a metade que mais sofreu foram os homens. É uma doença, que não existe, que inventei, que ataca os homens e, portanto, o mundo ficou muito desequilibrado do ponto de vista do género. Muitas mulheres e poucos homens ao ponto de, no início da história, os homens chegaram a ser traficados como quase objectos de luxo ou animais de luxo. Nesta sociedade extraordinariamente normativa, por exemplo, não existe sexo. O sexo é proibido. As mulheres não dão à luz como agora, existem úteros artificiais. Os homens são todos iguais como se fossem clones.  Os maridos são escolhidos. Há um instituto que se chama Instituto dos Maridos onde as mulheres, de uma certa idade, vão lá escolher o marido. Há uma fila de maridos, atrás de um vidro, e ela escolhe o seu preferido, como se fosse um animal. A história passa-se numa cidade das Yvelines, que se chama Andrésy, onde uma mulher [Francine] escolheu o marido, mas que é estéril. Logo, não poderia ter as duas filhas que a lei obriga. Então, ela teve que escolher um segundo marido. Mas, ela quis ficar com o primeiro [marido] porque já estava bem domesticado, já lhe lia os pensamentos e adivinhava os seus desejos. Portanto, ela optou por ficar com os dois maridos. Só que segundo marido é o que foge à norma. E isso é o detonador de toda a história. Este novo marido que foge à norma vai revolucionar toda a sociedade, ao ponto de pôr o Estado, políticos e polícia a tentar resolver este problema, esta anomalia naquela sociedade que se quer perfeita, igual quase composta por colono.  O meu livro não procura diabolizar a mulher, obviamente, o contrário. O que eu procuro fazer é criar uma espécie de um espelho que deforma a realidade que nós temos hoje. E a realidade que temos hoje é uma sociedade sexista, em que a mulher, mesmo nos nossos países democráticos e ocidentais, é constantemente discriminada. Portanto, quis com este livro fazer com que um homem que leia o livro, através da empatia que só a literatura consegue criar, consiga sentir na pele aquilo que sente a mulher dos nossos dias, o que é ser discriminado. É usar a literatura para fazer com que o homem sinta aquilo que uma mulher dos nossos dias sente". Por isso é que o homem também é caracterizado como aquele que foi criado para ser a fada do lar e a única coisa para que serve é, precisamente, para tratar da casa e para a questão da reprodução, não no sentido sexual, mas para alimentar os bancos de sémen. "Exactamente. Sou arqueólogo e estudei muito a pré-história e a época em que a mulher sofria menos discriminação, era exactamente a pré-história. Na época das cavernas, na idade das cavernas. Ou seja, a partir do momento em que a humanidade se sedentarizou e inventou a agricultura, a mulher passou a ser discriminada. Há sociedades, se calhar no presente não tanto, mas no passado, onde as mulheres não passavam de máquinas de parir filhos.  No fundo, nesta sátira, nesta distopia que é o “La Domestication”, quis deformar a realidade e transformar os homens naquilo que as mulheres foram ao longo de centenas de anos, desde o início da humanidade: máquinas de parir, fadas do lar. Neste livro, os homens são mais pequenos que as mulheres. Têm uma característica muito especial, as orelhas são caídas como as dos animais domesticados. Os lobos têm as orelhas em pé e os cães têm as orelhas caídas. Isto é um dos sinais de domesticação. E portanto, é usar tudo isto para mostrar aos homens como é que é ser mulher ou como é que foi ser mulher ao longo da história da humanidade. Acho que é importante que um homem tenha noção disso, porque o nosso mundo precisa de uma revolução feminista, no verdadeiro sentido de feminismo. Se formos ao dicionário, feminismo quer dizer absoluta igualdade de direitos entre homem e mulher e é isto que é preciso ninguém ser discriminado. É, por isso, que eu falo muito em revolução feminina e revolução feminista que também deve ser vista na própria linguagem, numa linguagem mais paritária". Este livro foi agora traduzido para francês, chama-se “La Domestication” e há aqui uma diferença na versão francesa. A linguagem foi feminizada?  "Foi. Já tinha tido esta ideia em Portugal, mas não sei porquê não tive coragem de fazer isto em português, mas agora optámos por fazer em francês. No fundo, neste livro toda a linguagem é feminizada. Se tivermos 50 homens e uma mulher, em português como em francês utilizamos o masculino, dizemos ‘olá a todos’. Neste livro, fizemos exactamente o contrário, acentuar ainda mais esse jogo de espelho. Se tivesse cinquenta homens e uma mulher nós dizemos ‘olá a todas’. Ou então, ‘o João e a Anabela são bonitas’. Portanto, há aqui um transformar absoluto da linguagem, porque faz todo o sentido e bate certo com todo o universo que é tratado no romance. Se o romance trata o universo totalmente dominado pelas mulheres, não faz sentido que a linguagem continue masculinizada". Esse processo obrigou a um maior trabalho da sua parte e também por parte da tradutora? "Foi essencialmente um trabalho da tradutora. Um trabalho magnífico que a Clara Domingues realizou neste livro. Porque o nosso cérebro não está preparado para este tipo de coisas. É estranho. Eu próprio já li este livro várias vezes durante a revisão e é estranho. Estou tão acostumado à masculinização da linguagem, que o cérebro não capta imediatamente a feminização da linguagem.  Há uma palavra, por exemplo, homenagem que é ‘hommage’ em francês. Esta palavra foi varrida daquele universo e foi substituída pelo ‘femmage’. O nosso cérebro, às vezes, entra ali em colapso, porque é difícil captar estas subtilezas da linguagem". Há também alguma preocupação com o planeta. Os períodos deste livro são dois extremos: o frio extremo e o calor extremo. "Há muitas prioridades neste mundo. O nosso mundo está doente. Tanto a sociedade como o planeta em si. A mim não me interessa muito que haja mais justiça social, que as mulheres deixem de ser discriminadas, que estas conquistas forem alcançadas e depois não temos planeta.  Existem uma série de revoluções que devem acontecer no mundo, mas a mais importante, porque sem isto nada faz sentido, é a revolução ecológica. Nós temos de uma vez por todas que tomar consciência de que o planeta está doente e que nós não podemos continuar a viver assim. Não podemos continuar a poluir com poluímos. Não podemos continuar a explorar o planeta como exploramos. Alguma coisa tem que mudar. Qualquer pessoa percebe que as canículas são mais poderosas. Já não há água. Qualquer dia entramos com mais vigor na guerra por causa da água. Nós vimos tempestades, furacões… Quer dizer, está tudo a aumentar de intensidade. Temos de perceber que sem o planeta, tudo o resto que consigamos de positivo não faz sentido". A tradução do livro ficou a cargo de Clara Domingues, que ao microfone da RFI explicou o processo de 'feminização' da língua. “O que eu fiz para ‘feminizar’ o texto, foi em primeiro lugar procurar o feminino de palavras em francês que já não existem, como por exemplo para a palavra médico. Actualmente, em francês, o vocábulo médico não tem feminino. Mas esta palavra existia no feminino no século XVI.  Na verdade, em França, a Academia Francesa de Letras procedeu a um tipo de masculinização da língua em palavras ou profissões de prestígio, como autor ou médico. O feminino das palavras foi simplesmente banido do dicionário. Portanto tive de fazer um primeiro trabalho de pesquisa para encontrar estas palavras no feminino que já não usamos. E isto foi relativamente fácil, o que foi mais difícil foi o de não utilizar o “il”, este pronome pessoal na sua forma neutra ou impessoal. Isso obrigou-me a várias revisões do romance para apagar todos estes “il” neutro, que em francês tem conotação masculina. Foi este o aspecto mais complicado, mesmo sendo o objectivo desde o início, está tão enraizado na linguagem, que me obrigou a múltiplas revisões para que isso fosse tudo suprimido”.  O livro “La Domestication'' é a tradução francesa de “O Homem Domesticado” de Nuno Gomes Garcia, escritor português radicado em França. Finalista do Prémio LeYa em 2014, com o seu segundo romance “O dia em que o sol se apagou”, o escritor vai representar Portugal no Festival de Literaturas Europeias de Cognac, que se realiza de 17 a 22 de Novembro.
    6/6/2022
    9:36
  • Realizador português João Pedro Rodrigues estreou novo filme em Cannes
    "Fogo fátuo" de João Pedro Rodrigues tem sido ovacionado em Cannes, na sua estreia mundial, onde é exibido na Quinzena dos realizadores. O filme desconstrói estereótipos em torno da paixão entre dois rapazes na primeira comédia musical do realizador português. Trata-se da sexta longa metragem do lisboeta João Pedro Rodrigues. Ele que se notabilizou internacionalmente desde o ano 2000 e o seu "O Fantasma" evocando a liberdade sexual de um gay empregado do serviço do lixo. Após "O ornitólogo", em 2016, este é o regresso de um cineasta que também é autor de curtas metragens e documentários. A sala da Quinzena dos realizadores apladiu longamente, de pé, a estreia mundial desta primeira comédia musical de João Pedro Rodrigues onde não se deixa de confrontar estereótipos raciais ou culturais, entre africanos e europeus, nomeadamente. A banda sonora inclui músicas de Carlos Paião "Uma árvore, um amigo", no passado interpretada por Joel Branco, cantigas tradicionais como "Mané Chiné", com interpretação de Amália Rodrigues, ou o "Fado do embuçado" cantado por Paulo Bragança. A primeira comédia de João Pedro Rodrigues conquistou Cannes. O realizador falou no local à reportagem da RFI, bem como os actores principais: Mauro Costa, que é Alfredo, o príncipe, e a sua paixão nos bombeiros, Afonso, encarnado por André Cabral, português de ascendência angolana.
    5/26/2022
    22:57

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